Quarto de despejo é um livro angustiante, pungente como diria a autora Carolina Maria de Jesus. Ele relata uma vida de escravidão mesmo tanto após a abolição. Nossa narradora mora na favela, lugar que não queria considerar como casa, sempre no sonho de viver em uma casa de verdade com os seus filhos. Imagine uma mulher negra sozinha no mundo com seus três filhos, tendo que catar papel de manhã para ter o que comer de noite. 
Sendo menosprezada muitas vezes por ser mãe solteira, negra, leitora e escritora em um ambiente onde seus hábitos não são valorizados, ela segue tendo a escrita como forma de registrar os seus sonhos e sentimentos diante de tudo o que acontece na favela.  
Na favela, Carolina conta como são rodeados pela fome, sujeira, violência, falta de entendimento entre os moradores. No começo do diário percebe-se alguma esperança em mudanças no país, o que logo é substituído por revolta e críticas aos políticos que viram as costas para a pobreza depois que são eleitos. 
A fome é a personagem mais presente na vida da narradora e seus filhos, sua constante é uma luta pela sobrevivência, cansada de ver os comerciantes jogarem fora os alimentos que não foram vendidos por custar muito caro. Muitas vezes a  família tem como refeição algo retirado do lixo. 
A narradora não foca apenas na sua vida, mas faz da favela seu personagem principal, narra as intrigas, as dificuldades da vida de seres humanos despejados para viver como animais ou seres sem civilização. 
É um livro único, eu jamais poderia imaginar ter essas narrações tão verdadeiras, apenas quem viveu poderia contar. A edição não 'corrigiu' todos os desvios gramaticais esperados, pois a autora teve oportunidade de estudar por pouco tempo. Apesar da pouca formação, Carolina Maria de Jesus demonstra ter sido sempre uma leitora, provavelmente lia mais do que a maioria de pessoas com mais estudos e condições financeiras. 
Escrever e ler foram as armas dessa mulher para enfrentar a fome e ter esperança em dias melhores, enquanto outros se acomodavam ou se revoltavam com a miséria. 


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