Medo e Liberdade

by - março 27, 2019

Ela se foi, mas eu vejo seu sorriso zombando de mim numa manhã de sol. Os dentes tão brancos e felizes como da última vez. Jéssica. 
Eu repito seu nome e fecho o jornal, passo a mão direita pela pulseira na outra mão, sinto as bolinhas com os dedos. Poderia ser eu? Sou o que chamam de boa menina. Um exemplo. Jéssica deveria ser assim. Se a mãe dela me conhecesse diria isso. Você deveria ser igual a Mariana. Todas as mães querem que as filhas sejam iguais e mim. Eu só queria que fosse tudo diferente. 

Quando cheguei à escola, o vazio foi tão grande, eu não sabia se não teria aula, mas não é esse o vazio. Sinto como se a escola estivesse fechada há anos, séculos... as almas de meninas de algum antigo internato vagando sem paz, aquelas que fizeram algo que o mundo condena, presas à espera de um perdão. As que nada fizeram condenadas a uma eternidade sem lembranças e sem culpa. 
Um delas senta ao meu lado no banco, sinto um frio percorrendo meu corpo, mas não sinto medo dela, sinto medo de mim, acho que ela sabe o que eu penso. Sempre achei que os fantasmas ouvem todos os nossos pensamentos e tenho medo de ter pensamentos impuros porque Deus também ouve tudo e a Ele eu não posso enganar. 
Quando eu era mais nova, eu sonhava constantemente com o inferno, lá as pessoas dançavam sem parar, todos vestiam preto e queimavam, devo ter visto isso em algum filme. Deus, não me deixe parar nesse lugar, perdoa, se eu esqueci de rezar. 

Eu sei que a garota fria ao meu lado só vai sair quando eu contar tudo. Fui até a casa de Jéssica ontem à noite, ela me chamou para estudarmos juntas, eu sou a nerd da turma, todo mundo quer fazer trabalhos comigo, mas ninguém nunca me chamou pra ir em sua casa. Acho que é o tipo de coisa de amigos íntimos. 
A irmã dela achava que ela tinha ido à igreja com os pais, esperei mais de uma hora, os pais dela chegaram e disseram que ela ficou na praça, eu fui lá, mas não a encontrei e voltei pra casa. Foi só isso. No fim, acabamos não estudando juntas, não sendo amigas, muito menos íntimas. 

Mas você não encontrou com ela mesmo? Quando ela te deu a pulseira favorita dela? 
Eu sabia que não podia mentir. Fui para a praça, ela estava lá sozinha, é engraçado que eu sempre quis ser o tipo de pessoa que senta sozinha em uma praça, sou tão sozinha que receio que todo mundo perceba. Ela correu pra mim, qualquer um assistindo diria que somos amigas de infância. 
- Mari! Que bom que você veio! Eu desisti de estudar, tenho planos melhores, se você quiser, pode vir. 

Nós nunca nos falamos na escola, foi sempre eu no meu grupo de amigos e ela no dela, então nunca nos falamos até que a professora de História passou um trabalho em grupo e sorteou os nomes. Não foi um problema, ela veio logo falar comigo. 
- Ei, Mari, finalmente eu vou tirar um dez, graças a você? 
Ela tem um jeito afetado de falar, como as pessoas das novelas. Saímos juntas da escola e eu vi como os meninos olhavam para ela. Mesmo com os cachos bagunçados e o uniforme da escola mais que velho, ela ainda é bonita. 
- Você pode ir na minha casa hoje à noite? Estudamos e começamos a escrever a pesquisa. 
Eu estava tão inibida com o jeito extrovertido dela. 
- Jéssica, se você quiser, eu posso fazer tudo, eu não me importo... 
Ela dá uma de suas grandes risadas e joga o cabelo pra trás. 
- Não, querida, eu não sou tão burra assim e não se preocupe, eu não vou ficar discordando de você. 
- Não foi o que eu quis dizer, é que.. 
Mas ela já está arrumando a minha blusa e colocando meu cabelo atrás da orelha. 
-Tudo bem, eu entendi. Quantos anos você tem, Mari? 
- 16. 
Acho que ela não consegue ficar muito tempo no mesmo assunto, enquanto isso eu sou tão lerda que demoro pra processar as coisas e posso passar o dia na mesma conversa. 
- Sério?! Eu tenho 15 e pareço mais velha, você já repetiu? 
- Eu comecei a estudar com um ano de atraso. 
- Você tem namorado? 
Meu Deus, eu odeio essas perguntas íntimas, porque eu nunca tenho uma resposta boa, acho que ela percebeu que eu fiquei vermelha da cor do nosso uniforme. 
- Não. Eu acho que os meninos não olham muito pra mim. 
- Como não, querida? Vou te contar um segredo. Os meninos sempre querem aquilo. Meninos, homens, velhos, eles não evoluem, sempre querem a mesma coisa. Você pode não perceber, mas ... 
Ela sumiu de perto de mim e volta abraçada com Jonas, cara, ele é o menino mais lindo da escola, ele nem sabe que eu existo. 
- Você ainda me ama? Ainda me acha bonita? 
Se babar por ela for considerado uma resposta, acho que ouvi ele dizendo sim para tudo. 
- Jonas, eu vou deixar meu cabelo igual ao da Mari. O que você acha? Ela é bonita, não é? 
Pela primeira vez na vida, ele olhou para mim e melhor do que isso, concordou e sorriu para mim. 
- Viu? Você é linda! A gente se vê à noite. Sabe onde moro? 
- Sim. 
Aqui todo mundo sabe onde todo mundo mora, ela mora pertinho da praça principal. Ela me deu um abraço cheio de afeto e me deixou lá plantada e sem graça. Conforme ia andando, ficava um rastro de cachos e perfume ao vento. 


Sim, nós nos vimos à noite, mas não estudamos nada. Havia alguns velhinhos jogando cartas nos bancos da praça, alguns casais de namorados. A rua já estava com pouco movimento. Ela sentada embaixo de uma árvore, eu nunca sei os nomes das árvores, mas essas daqui têm a copa bem grande e abrigam muitos pássaros, faz um barulho bonito quando eles voam juntos. Eu não saio à noite, nunca, nem para estudar, por isso acho que essa noite é especial. 

- Que planos, Jéssica? Temos que fazer a pesquisa e ... 
- Não esquenta, senta aqui. 
Ela ia explicar o motivo, mas se distraí com um casal na penumbra. 
- Você nunca vem aqui, não é? Eu nunca te vejo. Você devia ter vergonha, Mari, é mais velha do que eu e não tem namorado. 
Eu estou impaciente demais para ficar com vergonha agora. 
- A gente vai para sua casa ou não? 
- Não, sua boba, a gente tem um esquema pra hoje. Foi um carinha que eu conheci que me chamou. Na verdade, ele estava procurando um lugar... 
Ela fala cada vez mais baixo só para mim. 
- ... e eu sugeri a escola, aquele pátio todo lá e a área de trás, o campo enorme, enfim, tudo lá, ótimo pra uma festa. É só pular o muro, vai ser tão empolgante. 
- O que?! Tem o guarda. E você tá louca? Vão fazer o que lá? 
- A gente só quer se divertir, vai uma galera. Se você fosse da noite ia saber que o guarda só fica até às dez, depois não acontece nada nessa cidade mesmo. Por isso eu não posso ir para casa agora, já falei pra mamãe que vou dormir na casa de uma amiga, ela nunca confere. 
Ela ia me achar uma velha se eu falasse, mas queria falar para ela não sair à noite com pessoas que não conhece direito, falam que eu sou inocente, mas acho que não, acho que inocentes de verdade são as pessoas que confiam nas outras pessoas. Lá no fundo eu queria ir, ninguém nunca me chamou pra uma festa. Ser amiga da Jéssica podia ser uma das melhores coisas pra mim, ela é tão alegre e amiga de todo mundo. 

- Eu queria ir, nunca vou muito em reuniões assim...Mas eu não posso, eu nem estou arrumada... 
Ela dá um salto e começa a me arrumar, seu pulso tem várias pulseiras coloridas, ela tira uma e põe em mim. 
- Eu sei que você não gosta dessas coisas, Mari. Você é uma nerd. Mas, outro dia, vamos fazer outra coisa juntas, estudar, você vai me indicar algum livro. Eu só te vejo lendo, eu quero ser culta também. Sabe, eu vou ser jornalista, tenho que ser mais culta. Vamos fazer esses programas juntas. Vamos ser amigas. O que você vai ser mesmo? 
- Não tenho certeza, eu quero tantas coisas, mas não sei se vou poder ir pra faculdade... 
- Ah, vai sim, você é inteligente. Olha, eu vou me arrumar na casa de uma amiga. Bom, eu sou uma pessoa natural, sabe? Não gosto de frescuras, maquiagem, nada, mas ela me chamou pra nos arrumarmos juntas, sairemos quando os pais dela dormirem e voltamos antes que percebam. Esse é nosso segredo. 

Jéssica me deu mais um de seus abraços e eu fui voltando pra casa, observando as ruas já quase vazias. Não, as boas meninas como eu não são da noite, mas a noite tem uma força misteriosa que me puxa, eu tenho vontade de não voltar pra casa, de ficar pra sempre andando nas ruas, sentindo o vento frio contra meu rosto, observando as pessoas que passam, talvez elas tenham um segredo também. 

Em casa, eu percebi que ainda estava com a pulseira dela, pensei em tirar e guardar pra entregar no outro dia, mas acabei ficando, é um pulseira de bolinhas coloridas, meio infantil, mas tem um certo charme. 


- Está dormindo, filha? 
Minha mãe me acorda e sei que estou atrasada para a escola. Será que Jéssica vai? Não sei até que horas durou a festa. 
- Você não sabe o que aconteceu, não tem aula hoje. A cidade toda está comentando. Vem ver. 
Pulo da cama e vou até e sala onde fica o computador, minha mãe e minha irmã mais velha estão vendo uma página de notícias da cidade. Tem uma foto de Jéssica e de outra 
menina. Estão mortas. Meu Deus! Quem fez isso? Eu quase não sinto mais qualquer coisa embaixo dos meus pés. Minha mente gira tentando processar. Alguma coisa relacionada com ontem à noite? Será? Está morta, não tem nenhuma tarja, dá pra ver a poça de sangue embaixo dela. Estão mortas no pátio de trás da escola. O brilho dela, da pele, do cabelo, tudo se foi, está pálida. Os vizinhos ouviram gritos, mas não fizeram nada porque tiveram medo, elas foram mortas à facadas, a outra menina também tem quinze anos. Há muitos comentários nas fotos, falam muitas coisas sobre ela. Compartilham as fotos e dizem que é o que acontece que meninas desobedientes, que se estivessem na igreja não estariam mortas. Acho que ninguém lamenta por elas, além das famílias. 

Meu pai chega com o jornal impresso, mais fotos. Minha mãe fala que é nisso que dá uma menina sair de casa à noite, é o que acontece com gente sem juízo. Eu olho o jornal e não a reconheço mais, vejo as pulseirinhas nos braços sujos de sangue e terra. Uma está comigo. A mesma roupa que ela estava na praça. Eu disse a ela que eu queria ir, eu podia ter ido. O que meus pais diriam? As mesmas pessoas iam dizer que eu mereci por ser desobediente? Ela merecia morrer? Eu acho que as pessoas são cruéis, as pessoas que matam outras pessoas, as que julgam outras pessoas. 


No outro dia, eu acordo pensando que foi tudo um sonho, nada aconteceu, eu não fui com ela e fiquei impressionada a ponto de ter esse pesadelo maluco. Me reviro na cama e encontro o jornal, não quero olhar o sangue, não quero acreditar em nada. Visto meu uniforme e vou pra escola ainda com o jornal. 
Qualquer coisa que estivesse sentada ao meu lado no banco da escola vazia já se foi, estou aliviada porque eu contei tudo, eu não sou melhor que ela, eu não sou quem pensam que eu sou, ela não era o que falam. Eu poderia ter ido junto ou ter a impedido de ir, tudo poderia ter acontecido, mas foi assim, foi só a pior maneira de se terminar uma história, mas não foi a maneira que ela merecia. 
 Lembro dos meus pesadelos e tenho certeza que Deus não manda as pessoas para aquele lugar, talvez as pessoas más, mas ela não era má, não estamos fazendo o mal quando tentamos ser felizes, não recebemos um castigo por isso. 
Eu tiro a pulseira para deixar no banco, resolvo e deixo o jornal também, essa não é a Jéssica, não preciso da imagem de um corpo morto para me lembrar dela. Lembro a Jéssica sorrindo pra mim e se afastando lentamente com o Jonas, deixando um rastro de perfume adocicado e fazendo os ventos brigaram para bagunçarem seus cachos castanhos. Agora ela é livre. 

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